Um voo para a vida – Especial ~ Bora Leão
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terça-feira, 17 de outubro de 2017

Um voo para a vida – Especial

Postado por Paulo Rodrigo às 15:26:00 terça-feira, 17 de outubro de 2017

Você nunca vai saber quem escreveu esse texto. O motivo é simples: não revelarei minha identidade. Não sou do Bora Leão, mas tomei a atitude de escrever para este blog que fala do Fortaleza, pois é o melhor local pra escrever para quem é torcedor tricolor e, modéstia à parte, a história é tão interessante que o autor dela tem que ficar em sigilo. Mas vamos lá... Não importa quem escreveu, eu sei que mita gente vai se identificar, pois não fui só eu que vivi essa história. Provavelmente, você terá vivido algo parecido em maior ou menor grau.

Então... O ano era 2015. Para o torcedor do Fortaleza, o ano do Brasil de Pelotas, ou para os mais otimistas, o ano do gol do Cassiano - o segundo gol que mais comemorei na vida, pois o primeiro foi aquela defesa do Boeck no ângulo (sejamos francos, a gente sabe que aquele foi o gol do acesso, o melhor lateral esquerdo do mundo, Bruno Melo que me perdoe). Esse ano citado, de tanta alegria, foi também o das primeiras crises de depressão que tive na vida. Algo tão ruim que nada parecia  ter graça. Nem ver a narração do gol do Cassiano, nem ver o famoso "que foda mermão''. Eu estava letárgico, nada ia me animar.

Procurei ajuda, me tratei e melhorei de duas crises. Estava apto para "viver em sociedade", me emocionar e me alegrar com quase tudo. Algo ainda estava errado. Eu tinha esquecido o que era minha paixão por esse esporte e por esse time. 

Mais uma vez o Tricolor do Pici, a paixão da minha vida, chega no mata-mata da série C. E mais uma chance de sair do inferno. No primeiro jogo, no Rio Grande do Sul, contra o Brasil de Pelotas, perdemos. Não me abalei tanto. Ainda estava esperançoso, afinal aquele era o time que tinha "papado" o penta do rival, era o time que quebrava tabus, podia quebrar mais esse, mas não quebrou.

No dia tão esperado, um novo fracasso. Logo pensei ''nada dá certo na minha vida'', não vale a pena continuar. Então, quando voltei pra casa, depois de ter chorado muito, tomei uma decisão, decidi acabar com tudo isso. Você entendeu, não é? Enfim... Liguei a TV para assistir um filme e esperei pacientemente, até acabar. Minha mãe veio no meu quarto várias vezes, sempre perguntando ''como você está, meu filho?'' e eu sempre respondia ''tô bem'. Ela chorou. Enquanto isso pediu ajuda a Deus. 

Em meu lugar, continuava a pensar em suicídio, em me jogar pela janela, para acabar com tudo de uma vez. Bem na hora que estava prestes a fazer, minha mãe chegou e me questionou sobre o que estava fazendo. Eu disse que não estava fazendo nada, até que uma hora, quando ainda pensava em tirar minha vida, admiti isso e minha mãe chorou absurdamente. Olhando nos meus olhos me disse "Eu sabia. Deus me avisou e não te deixou fazer isso''. Naquela hora pensei que Ele me queria vivo para algo. 

"Eu sabia. Deus me avisou e não te deixou fazer isso."

Eis que mais ou menos um ano e um mês depois, aconteceu o maior acidente aéreo da história envolvendo um clube de futebol. Um ato de irresponsabilidade matou quase que todo o time da Chapecoense. Apenas três dos que estavam no voo não morreram. Mas para além deles, outros jogadores que não viajaram. Entre eles, Marcelo Boeck. 

Eu como ser humano e admirador de futebol, chorei muito, mas cheguei a pensar "quem escapou dessas, tem que agradecer muito, Deus deve ter algum propósito, e Deus tinha preparado algo tanto para mim, como para um deles". 

No dia 23 de setembro de 2017, pude entender porque no dia 29 novembro de 2016, o ex-goleiro da Chapecoense não embarcou naquele avião da LaMia. Foi justamente para alçar outro voo e buscar, no ângulo, a bola que mais uma vez impediria o acesso do Leão. Ele não morreu para ressuscitar a autoestima do torcedor Tricolor. Com isso, também consegui entender por qual motivo no dia 17 de outubro de 2015, minha mãe me impediu de cometer suicídio. Foi para eu ver com meus próprios olhos o juiz apitar o fim do jogo, dando fim aos nossos dias de terror. Eu, literalmente, estava mais vivo do que nunca.

O meu Fortaleza quase me tirou a vontade de viver, mas dois anos depois, me deu orgulho de estar vivo. O sentimento do zagueiro Edimar quando disse ''vai morrer na série C é o caralho'', foi de toda uma nação e o meu também, que pensei ''a gente está vivo e está na série B''. Tantas coincidências nessa história, só me fazem lembrar de uma frase do genial Nelson Rodrigues: "Deus está nas coincidências". Não tenho dúvidas das palavras do nosso paredão: 

''Nunca foi sorte. Sempre foi Deus.''