Especial – Há um ano ele renasceu ~ Bora Leão
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terça-feira, 28 de novembro de 2017

Especial – Há um ano ele renasceu

Postado por Paulo Rodrigo às 14:23:00 terça-feira, 28 de novembro de 2017
Foto: Reprodução
Para quem ama futebol, o dia 29 de novembro de 2016 foi, talvez, um dos mais difíceis. Mesmo para quem estava acostumado a viver os mais diferentes sentimentos que esse esporte pode proporcionar. A sensação era outra. Um nível além do comum de profunda tristeza, para ser mais exato. Impossível de comparar com um título perdido, um rebaixamento, um não-acesso. A Chapecoense entrava para a história, mas não de um jeito desejável.

Nesse fatídico dia, 19 atletas, 14 membros da comissão técnica, 9 dirigentes, 20 jornalistas, 7 tripulantes e 2 convidados, se foram. Ao todo, 71 vidas. Amigos, pais de família, filhos etc. Profissionais dedicados, em especial, de imprensa e futebol, que saíram do Brasil, rumo à Medellín, em busca de dar o seu melhor para aqueles que os esperavam.

Esperança em meio à tragédia

Dos 77 passageiros, seis permanecem entre nós. Os atletas Alan Ruschel, Neto e Jakson Follmann; o jornalista Rafael Henzel; e os tripulantes Erwin Tumiri e Ximena Suarez. Não se pode mensurar as dificuldades que cada um teve de superar, nem o quão gratos são pela nova oportunidade. De recomeçar, serem mais fortes e, principalmente, não permitir que o tempo apague a importância dos demais. Todos que aqui permanecem, por mais distantes que sejam/estejam, representam aqueles que se foram.

Um sobrevivente a mais

Você não leu errado. Há alguém que não consta na listagem, mas que teve seu destino mudado por inteiro. Seu nome? Marcelo Boeck. Nome que, na época, não era tão lembrado. Revelado no Internacional, onde foi campeão Mundial, figurava o plantel da Chape apenas como segunda ou terceira opção. Antes disso, viveu anos no futebol português. Um perfil que, analisado de forma superficial, não aparentava mais ter o desejo de aspirar tantas coisas. Engano.

Relacionado para o confronto decisivo diante do Atlético Nacional, uma ocasião especial lhe tirou da lista: o aniversário de seu filho, Arthur. Ou melhor, o seu também. Ambos nasceram no dia 28 de novembro. A partir daí, sua vida começou a mudar.

Novos ares... E conquistas

Passado o período de luto, Boeck foi apresentado como mais novo reforço do Fortaleza para 2017. Ainda com alguma desconfiança por parte da imprensa e torcedores, por vir de um banco de reservas, não demorou muito para demonstrar sua experiência e espírito de liderança. Em pouco tempo, se tornou capitão.

É fato que o primeiro semestre Tricolor não foi dos melhores. Eliminação nas Copas do Brasil e NE, além de uma eliminação na semifinal do Cearense. Mas isso, claro, não dependia apenas do arqueiro.

No segundo semestre do ano, porém, veio a redenção. Após uma campanha de oscilações na Série C, Boeck e seus companheiros chegaram ao mata-mata. Isso não era mais novidade para o torcedor, que já havia acompanhado o fracasso do time nesta mesma fase da competição em outras várias oportunidades.

Mas coube a esse elenco dar o primeiro passo inédito (e positivo) nesse inimigo pessoal, diante do Tupi: vencer uma partida. Numa Arena Castelão lotada, vitória por 2 a 0. Algo que, até então, não havia acontecido. Na sequência, fora de casa e com um adversário mais agressivo, derrota pelo placar mínimo. Nada que estragasse a festa. O acesso estava garantido.

Marcelo Boeck operou diversas defesas consideradas "impossíveis" e cresceu ainda mais na reta final da competição. Primeiro, no Castelão, ao defender uma excelente cabeçada. Depois, em Juiz de Fora, ao buscar a bola do jogo, que tinha endereço certo e poderia dar ares ainda mais dramáticos ao confronto. E ao final de tudo, com o acesso garantido, eis que vieram as inesquecíveis e emocionantes palavras:

"Dia 18 de novembro, dez dias antes daquela tragédia, eu recebi a primeira ligação do Fortaleza. No começo a gente ainda estava em final de Sulamericana e reta final de brasileiro. Como passei 9 aos na Europa, eu queria jogar. Todo jogador de futebol deseja isso. Naquele momento, eu não estava jogando e, por Deus, eu não estou morto hoje, porque o normal seria estar morto. Após aquela tragédia, passada aquela semana toda ruim, de luto, o Fortaleza ainda assim esperou. E a gente, eu e minha esposa, sentimos algo muito forte de vir ao Fortaleza. Uma Série C, um projeto desafiador, muita pressão, mas nós aceitamos. E hoje, eu creio que a explicação que eu não tinha sobre o por quê de não estar morto, era pra viver um momento como esse. Se hoje estou aqui, em primeiro lugar é a Deus, segundo lugar a minha esposa, por sem ela eu não sou nada. E a esse clube, esse grupo, que não merecia estar esses anos todos numa Série C.

Quando o Fortaleza quis fazer uma camisa com minha assinatura, após o cearense, haviam três cores a serem escolhidas: vermelha e azul, que já são tradicionais, e verde. E eles me deixaram muito à vontade. E a minha maneira de reconhecer tudo aquilo que meus companheiros da Chapecoense que partiram fizeram e o carinho dessa torcida, foi escolhendo essa cor. Hoje ela representa tudo aquilo que eu aprendi lá, tudo que eu sofri, mas principalmente todo carinho que eu recebi dessa torcida desde que cheguei aqui." 


Marcelo Boeck