O dia que eu fui mais vencedor, eu perdi ~ Bora Leão
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sábado, 23 de dezembro de 2017

O dia que eu fui mais vencedor, eu perdi

Postado por Luca Laprovitera às 01:01:00 sábado, 23 de dezembro de 2017
Imagem: TV Leão
Sei que os últimos dias vem sendo complicados, mas me desculpem, eu só quero falar de Fortaleza. Alguns reclamam que eu uso o fato de ser ex-funcionário para contar certas histórias, mas são testemunhos que eu gosto de compartilhar, que são bem pessoais meus e hoje vou falar do nosso acesso, para encerrar 2017 e esquecer esse inferno que foi a Série C e dar início a um novo momento para todos nós, sem jamais deixar de lado os erros do passado, para não repetirmos no futuro.

Tudo começou ainda no dia 9 de outubro de 2016. O Fortaleza chegava para enfrentar o Juventude no Castelão. Estava com o celular do nosso auxiliar de Assessoria (e hoje fotógrafo do Diário do Nordeste) Saulo Roberto fazendo a live da chegada do time no vestiário para a página do clube. Não contive as lágrimas, chorava ao lado do Joaquim Neto, o Juba, cantava cada refrão de "Dá-lhe, Dá'lhe Tricolor" a plenos pulmões, pensava que finalmente era nosso dia. 

Vi o primeiro tempo inteiro do Skybox, mas no intervalo desci fui para atrás do gol de Ricardo Berna e vi perfeitamente todo movimento do gol de Hugo, e me via a mente: 'de novo não'. Vibrei no gol de Pio, fui chamado a atenção e até mesmo retirado do gramado pelo quarto árbitro, mas Rosinei me escondeu no banco de reservas. Todos nervosos, a bola não entrava, não entrou, fim de jogo. Minha única reação foi deitar no chão e chorar, fui levantado por Davi Matos, cinegrafista da Esporte Interativo, pediu para me recompôr. Puxei jogadores para dentro do vestiário e nas escadarias da zona mista chorei ao lado de Marcos Matheus. 

Ao entrar no vestiário, parecia um velório, muitos sequer conseguiam ir para o banho. Atletas como Railan, dos mais brincalhões sequer conseguiam falar tamanha tristeza, naquele dia decidir sair do Fortaleza, para 48 horas mais tarde olhar nos olhos do nosso Assessor de Imprensa Fábio Marques e dizer: 'Eu vou subir esse time!' Saí e voltei do Fortaleza, deixei de ser Assessor de Comunicação, dois meses depois fazia parte da TV Leão, Luis Eduardo Girão me dava a chance de concretizar aquilo que eu via parte do meu destino, ver o Fortaleza subir. 

Chegamos ao dia 16 de setembro de 2017, estamos de volta ao Castelão, o adversário dessa vez é o Tupi, o jogo ao invés do segundo, era o primeiro. 40 mil cantavam na arquibancada quando Bruno Melo recuou para Leandro Lima, pela primeira vez em mata-mata estávamos na frente. Enquanto todos comemoravam, eu só sabia chorar. Foi assim também no pênalti de Bruno Melo, apenas lágrimas, emoção descendo dos olhos. Desci para a zona mista nos acréscimos, chorava sozinho nas escadas da zona mista, Luis apenas me pediu calma e dizia: "nada ganho ainda". Ele tinha razão, a cada jogador que passava, apenas palavras de apoio e abraços apertados, ainda tinha Juiz de Fora.
Eu e Arthur no avião na primeira foto.
Na segunda Paulo Matheus e eu na frente do hotel, em Juiz de Fora.
Peguei um voo cedo na quinta-feira (21/09) de manhã com destino para o Rio de Janeiro junto com o câmera da TV Leão, Paulo Matheus, e o na época Auxiliar de Marketing, Arthur Salgado. Com bastante turbulência, chegamos por volta das 8:30 na capital carioca e de lá partimos para Juiz de Fora em um carro alugado. 

Nos dois primeiros dias pouco vimos do jogo, foi apenas na sexta à noite que os primeiros tricolores apareceriam na cidade. Nos encontramos em maioria no Alto dos Passos, uma rua onde ficam alguns bares da cidade, o clima era de ansiedade, confiança, mas obviamente bastante nervosismo. 

No dia seguinte acordamos por volta de meio-dia, o preparador físico do time Celso Santos se juntou a gente no almoço e em seguida, eu, ele e o Paulo Matheus fomos em direção ao haras que o time estava concentrado próximo a cidade. Conversamos rapidamente com alguns jogadores e com o na época presidente Luis Eduardo, parti com o Paulo Matheus para o estádio Mário Helênio. 

Chegamos três horas e meia antes do jogo, a cada minuto parecia uma eternidade. Colegas de imprensa chegavam, apesar do 2x0 no primeiro jogo, o histórico ruim era tão forte que parecia que precisávamos do resultado. Passa-se um pouco das 19 horas, o Fortaleza chega no estádio, abraçamos os atletas um a um, nervoso, não consigo esboçar nenhuma reação, tinha que ser aquele dia. 

A cidade estava bem fria, o estádio por ser dentro de um buraco parecia ficar ainda mais gelado. Pego uma câmera fotográfica, invento que irei tirar fotos e fico no gramado com Paulo Matheus. Rola a bola, jogo nervoso. Fico atrás do gol que o Fortaleza ataca, do outro lado o Tupi chega, visão ruim, coração na mão, começavam as duas horas mais longas da minha vida.

O Tupi chega primeiro logo no início da partida, Everton escorrega, meu coração dispara, parecia roteiro de desastre. A bola é chutada em diagonal e Italo empurra pro gol, minha nossa, 1x0 Tupi! Nossa zaga inteira levanta a mão, o juiz Marcelo de Lima Henrique olha pro assistente Maicon Correia, marcado o impedimento, o alívio pairava e eu respirava um pouco mais. 

Logo depois a bola é cruzada, Marcelo Boeck, o único incriticável durante todo o ano, o ídolo, herói, o paredão sai mal, solta a bola nos pés do adversário que passa para Romarinho livre chutar apenas com Adalberto e Felipe em sua frente, mas com posicionamento insuficiente para tirar a bola e novamente na minha cabeça: 'vai ser traumático assim?", mas a sorte parecia nos sorrir, e o filho do baixinho do tetra isola a bola.

O Tupi pressionava, vinham de novo pela direita, Italo entrava livre e parecia ser ali, mas o dia era definitivamente nosso eu pensava, a bola batia no travessão e saia, era a nossa vez. Nossa melhor (e única) chance veio de um lançamento de Leandro Lima para Hiago que limpou e chutou, a bola cruelmente desviou em Helder e passou ao lado do gol. Minutos depois, fim de primeiro tempo, só 45 minutos pela frente.
Hiago e Lúcio Flávio se abraçam após o jogo.
(Foto: Bruno Ribeiro/GE.com)
Começa o segundo tempo, fico novamente atrás do gol que o Fortaleza atacava. Junto comigo e Paulo Matheus ficam o preparador físico Pacheco, os atletas que aqueciam para entrar e alguns membros da comissão como o Supervisor Álvaro Augusto, Toinha, Fábio Marques e o segurança Wellysson. 

O Tupi entra no desespero e a gente também, afinal faltavam 45 minutos para o nosso sonho, perder ali seria o ápice da crueldade do coração tricolor. O Tupi acerta o travessão em jogada aérea, tem gol anulado, tem milagre de Marcelo Boeck, o roteiro do sofrimento parecia ter mudado de lado. Só que o futebol é traiçoeiro e com o Fortaleza nada vem fácil.

Lúcio Flávio sobe livre e cabeceia, era ali, o gol do acesso, mas para ser o nosso acesso não poderia ser tão fácil. Como diria Galvão Bueno: 'a bola tirou tinta da trave e saiu'. Poucos minutos depois, em um bate-rebate dentro da área, Edmário cabeceia, Fernando chuta, Boeck defende e tenta dominar, não deu, o próprio Fernando chuta o que vê pela frente e abre o placar aos 36 minutos. Eram mais nove minutos, e ainda os acréscimos de sofrimento. 

Quem aquecia pedia os replays dos lances na câmera. Ronny não se aguentava, dividia a atenção entre o campo e os momentos que Paulo Matheus capturava. Eu e Wellysson olhávamos no cronômetro, cada um com o seu, e a cada 30 segundos informávamos quanto faltava, eram oito anos a serem decididos em um pouco mais de 10 minutos. 

O Tupi continua em cima, chute de longe, no ângulo e eu pensei: 'Não, de novo não, não é possível!'. E não era, Boeck foi em defesa que virou quadro e tatuagem, inspirado nos grandes goleiros da nossa história, sua mão direita foi a de Maizena, Bosco, Salvino, Lulinha, Pedrinho, e tantos outros, defenderam juntos, eram ali 100 anos de paredões fazendo aquele defesa, era sobrenatural, era hora de tanto sofrimento acabar.

Continuo contando os segundos com Wellysson, mas o tempo teimava em não passar, o frio ficava cada vez mais desconfortável, o coração batia cada vez mais rápido, era hora de acabar. Chegamos aos 49 minutos, a zaga corta, Hiago recebe a bola e chuta apenas de lado, Marcelo de Lima Henrique apenas levanta o braço, eu apenas escuto o apito.
Marcelo de Lima Henrique apitando fim de jogo.
(Imagem: Esporte Interativo)
O mundo ficou silencioso, a única coisa que eu escutava, ainda que de forma distante mesmo estando a 2 metros um do outro eram os gritos de 'CARALHO! CARALHO! CARALHO!', completamente emocionados de Paulo Matheus. Eu apenas caí, como um ano antes, caí e chorei. Deitei sem nenhum receio no gramado molhado e me isolei do mundo, só quem viveu esses anos sabe a reação de finalmente sair desse inferno. Me vieram muitas lembranças em mente. Os salários atrasados, os eventos perdidos, o olhar de decepção de cada um que amamos quando colocávamos o amor pelo Fortaleza na frente, tudo aquilo teria que valer a pena, e valeu, por todos que me apoiaram nos momentos mais difíceis, por todos que me levantaram no momento de maior descrédito, por cada ombro em que eu chorei, valeu por minha companheira Melina, pela minha sogra, pela minha irmã, pelo meu sobrinho, pelos meus pais, amigos, colegas, depois de oito anos eu voltava a sorrir sem peso sem nenhum, estávamos livres.

Me emociono apenas de escrever isso e lembrar. Me levantei e abracei todos em minha volta, cruzei o gramado e fui cumprimentado por Romarinho, cheguei e olhava tudo, meio como espectador, até que com um chute Marcelo Boeck me desperta, era o abraço do herói, que sobrevivia para entrar na história, a quem eu sou grato por tanta coisa dentro e fora de campo até hoje. Wellington Reis chega completamente ensandecido, me abraça e levanta, no alto dos meus 120 kg, era muita emoção. Emoção tanta, que eu, um ateu, participei de uma roda de oração. Era hora de agradecer, acreditando ou não, era a minha forma de agradecer cada um que deu de tudo para aquilo acontecer.

Hoje, exatamente três meses depois daquele dia, lembro como se fosse alguns minutos atrás. Ainda consigo ouvir aquele silêncio de emoção, consigo sentir o cheiro do gramado, consigo sentir o molhado da grama que me deitei, consigo lembrar da emoção, dos sentimentos, de todos que eu me lembrei, das histórias que eu vivi e passaram na minha cabeça, do sentimento de dever cumprido que me veio no coração. Quem diria, que o dia que eu fui mais vencedor, eu perdi? A derrota foi apenas no placar, para uma vitória muito maior para o nosso clube e para cada um de nós.

Feliz festas, e uma grande Série B para todos! Bora Leão!

Por Luca Laprovitera