Crônica: o Fortaleza e a magia de ir da melancolia à redenção ~ Bora Leão
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segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Crônica: o Fortaleza e a magia de ir da melancolia à redenção

Postado por Unknown às 19:07:00 segunda-feira, 26 de novembro de 2018
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(Foto: JL Rosa/ Diário do Nordeste)

Torcer por um time é como ter uma religião: você luta por uma causa com toda a sua paixão. Às vezes, a crença parece frágil. Você deseja e luta por objetivos que parecem nunca lhe responder. Cadê os sinais? O que, afinal, traz-lhe aqui?

Do nada, em meio à muita poeira e ferrugem, tudo se mexe. Vira ao contrário. Tudo parece fazer algum sentido, mesmo que, por vezes, um tanto inexplicável.

Eu me recordo bem daquela noite estranha. Fortaleza estava muito quente, até porque o clima na cidade não é muito de se entregar ao frio. Nos rostos de milhares tricolores, o calor se misturava ao suor. Subir a rampa da Arena Castelão requer um certo esforço. Não desisti. Estava certo de que minha noite seria inglória, como parecia ser a do Tricolor.

O torcedor que nasceu depois do tetra estadual, em 2010, parecia ter recebido uma praga forte. Coisa mesmo do mundo sombrio. Tirava o sono de qualquer torcedor. Teria que se contentar com alguma vitória magra em times pequenos. Nada de estrela nova no peito. Nada de comemoração. Nada de alegria.

Tinha mesmo era que engolir o choro e se contentar com o pouco que o time ainda poderia trazer. Foi a sorte quem quis que o caminho leonino fosse assim: dilacerante e pedregoso.

Vestida de azar, caracterizada, a sorte costuma fazer maldades com quem gosta de sorriso verdadeiro. Ela ri enquanto nos machuca e nos decepa.
Cada ano era uma prova de resistência maior. Era difícil acreditar numa mudança, num acontecimento capaz de alegrar a quem lotava o estádio aquele dia. O normal e esperado mesmo era perder e decepcionar.

Naquela noite, o Fortaleza foi eliminado, como já estava acostumado nesse tempo. Foi para o Juventude, que calou e entristeceu milhares de apaixonados ávidos por uma conquista mais uma vez.

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Juventude eliminou o Tricolor da Série C em 2016. (Foto: Reprodução/ Youtube)

Quem foi ao estádio, de tanto sofrer nos últimos anos, até que esperava a eliminação nas quartas de final da Série C. Dito e feito. Mais um ano amargando jogar em uma divisão que simbolizava o inferno. Caras chorosas, melancólicas. Silêncio nas bocas, no estádio e no peito. Revolta, suor e decepção. Palavras que já eram parte do vocabulário recente do torcedor tricolor. Tudo bem misturado. Parecia que a realidade do Fortaleza era a derrota para sempre. Só parecia

O que seria do felicidade se não fosse a tristeza? Naquele mesmo dia começou a virada que mudaria a vida de uma paixão. Eu acreditava que o que viria pela frente seria muito bonito. Acreditava porque minha fé no time que me ensinou o significado de amor é inabalável. O que tinha para fazer era tentar convencer quem não acreditava.

- Vamos persistir. Nada de desistir. Nosso Fortaleza é maior que tudo isso - eu dizia, com fortes dores e sem vontade de acordar no dia seguinte. Doía muito, mas não deixava de acreditar que daquela derrota iriam florescer vitórias muito maiores.

 Fora do estádio, encontrei um senhor, que aparentava ter uns 80 anos, visivelmente abatido. Dei-o um abraço e disse para não pararmos de acreditar. Ele balançou a cabeça e disse, baixinho.

- Meu filho, o tempo de glórias do nosso Tricolor já passou. Não volta mais. Deixe tudo na sua devida época.

- Não, não... ainda vai ter muito mais pela frente. O Fortaleza vai voltar a ser grande. As pessoas vão voltar a sorrir e se emocionar ao pensar na mística das camisas tricolores.

O senhor e outros torcedores não acreditavam no que eu dizia, mas, mesmo assim, não largavam suas camisas e bandeiras. Não se envergonhavam de dizer que eram Fortaleza.

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Dois anos depois, o Tricolor levanta a taça de campeão nacional diante do mesmo Juventude (Foto: Gustavo Simão/ Fortaleza EC)

Hoje, no meio do sentimento de êxtase pelo título de Campeão Brasileiro da Série B um ano logo após sair da Série C, eu vejo como tudo valeu a pena. Cada lágrima, cada choro, cada grito, cada noite sem dormir... Quem diria que o mesmo Juventude protagonista que nos fez chorar nos visitaria outra vez num dos dias mais bonitos de nossa história como mero coadjuvante, o de receber a taça inédita de campeão nacional.

É uma felicidade e um orgulho tão grandes que não cabem no coração de nenhum torcedor. Enfim, o leonino pode ter grande orgulho ao dizer que seu time é grande. Enfim, o que era tristeza virou felicidade. Enfim, a melancolia se transformou em redenção. Enfim, o Fortaleza vai voltar a figurar no lugar que todo tricolor de aço sempre mereceu.

E assim a nossa linda história cumpre os seus ciclos. Eu sei porque tenho um certa afeição pela magia do tempo, da bola e, por fim, da vida mágica que é encontrar no Fortaleza um amor eterno.