O Tempo - Carta a Rogério Ceni ~ Bora Leão
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segunda-feira, 12 de agosto de 2019

O Tempo - Carta a Rogério Ceni

Postado por Bora Leão às 10:09:00 segunda-feira, 12 de agosto de 2019
Foram quase dois anos. No dia 15 de novembro de 2017, o ex-goleiro e então ex-técnico do São Paulo Rogério Ceni se apresentava na Arena Castelão para o torcedor do Fortaleza. Depois de mais de duas décadas no tricolor do Morumbi, Ceni deixava sua zona de conforto e assumiria a difícil missão de comandar o leão do pici no ano do seu centenário e depois de oito anos de Série C.


O início não foi fácil. Antes mesmo de ter seu nome confirmado pelo presidente Marcelo Paz, parte da torcida rejeitava a contratação de Rogério. Também pudera, sua primeira experiência no banco de reservas do São Paulo tinha fracassado. Em seis ou sete meses, o clube que serviu como casa, te mandou embora. Naquela época, a atitude da diretoria do tricolor paulista pareceu errada. A imprensa perguntava o que seria de Rogério Ceni fora do Morumbi e falaram até, em categoria de base.

 Foi então que, depois de muitos anos, você resolveu sair um pouco de cena. Longe dos gramados, rodou a europa em busca de conhecimento. Quatro meses depois, percebeu que era a hora de um recomeço. O tempo para uma nova história, novas conquistas e um novo amor.

 No dia 17 de janeiro de 2018 você estreava pelo Fortaleza. Ainda com a desconfiança de alguns torcedores e com pouco tempo de preparação, o tricolor de aço goleava o Uniclinic por 4x0 no PV. Os quatro gols de Gustavo animou a torcida e você já começava a ser visto com outros olhos.

 O campeonato foi passando. Entre erros e acertos, palmas e vaias, gritos de burro e inteligente, o leão chegou a final do campeonato estadual contra o Ceará. Duro golpe. Mais duas derrotas para o rival e o sonho de seu primeiro título na nova carreira foi adiado.

 Pronto. O mundo do futebol voltava a duvidar de que Rogério Ceni seria um bom treinador. Na segunda-feira após o vice campeonato, a sua demissão era quase certa para imprensa e torcedores. Em uma coletiva que parecia ter sido convocada para comunicar sua demissão, Marcelo Paz contrariou o óbvio, e disse que Rogério precisava de... tempo.

 Em menos de uma semana depois, o Fortaleza estreava na Série B do Campeonato Brasileiro após oito anos distante. Um jogo difícil, amarrado, tenso, e decidido, mais uma vez, nos acréscimos. O gol de falta do Gustavo parecia um recado de que o clube passaria por novos tempos.
Depois da estreia, o momento de euforia. Com direito a um dos melhores inícios da história, o leão do pici quebrava recordes e chamava cada vez mais a atenção da mídia nacional.

 Virou rotina. A cada rodada, a cada vitória, Fortaleza e Rogério Ceni eram temas de programas, entrevistas, matérias e números. A desconfiança do torcedor não existia mais. Era coisa do passado.

 Em novembro de 2018, um ano depois de seu anúncio oficial, Rogério Ceni entregava ao Fortaleza o maior título da história do clube. Aos 100 anos, o tricolor era pela primeira vez campeão nacional. A cidade se vestiu de vermelho, azul e branco e respirou as suas cores.
Agora a euforia, veio a angústia. Será que depois de todo sucesso, Ceni continuaria no Fortaleza? aqueles que um dia falaram que você jamais aceitaria esse desafio, debatiam se Ceni seria melhor para o Flamengo, Corinthians, Santos ou Atlético Mineiro. Erraram de novo. Com uma postagem nas redes sociais, o leão anunciava que você continuaria com a gente e que o melhor lugar para você trabalhar era aqui.

Renovou por mais um ano. Com um novo elenco, iniciou mais uma vez seu trabalho no CT Ribamar Bezerra. Seria uma temporada diferente. No primeiro semestre, além do Campeonato Cearense, o tricolor estava na Copa do Nordeste e na Copa do Brasil. Novamente, com erros e acertos, o Fortaleza chegava na final do estadual, e dessa vez, na decisão do regional. Foi nessa época então que a torcida tricolor voltou a ficar angustiada. Uma nova investida do Atlético Mineiro e a imprensa mineira cravando que você acertaria com o galo após a decisão contra o Ceará. Mais uma vez, se enganaram. Ceni conseguiu tirar o tri do rival e pouco tempo depois conquistou a Copa do Nordeste.

No dia 28 de abril, enfim, começou a Série A do Campeonato Brasileiro. Depois de 13 anos o leão era novamente da elite do futebol nacional. Com vitórias e derrotas, o tricolor chegou a 14a rodada com 14 pontos e na 14a posição. Todos no clube se preparavam para o duelo contra o CSA, quando então veio a notícia: Rogério Ceni aceita a proposta do Cruzeiro e deixa o Fortaleza.
Uma notícia que chegaria a qualquer hora. Mais cedo ou mais tarde, só o tempo iria dizer. Então, o treinador que rejeitou várias propostas e disse que cumpriria seu contrato até o fim, falhou. O tempo mostrou que no futebol não é aconselhável fazer promessas. Nesse domingo, 11 de agosto, dia dos pais, o torcedor do Fortaleza ficou chateado.

Nas redes sociais, o tom era de tristeza. Alguns confessaram até que não seguraram as lágrimas. São feridas que só o tempo pode cicatrizar. De repente, me vejo na sala da casa do meu tio com minha família. Meu avô, com quase 90 anos e diagnósticado com Alzheimer, conta algumas histórias de sua infância. São poucas lembranças e até certo ponto embaraçadas.

 Ouvindo suas histórias, percebo que grandes momentos e grandes histórias, nem o tempo é capaz de apagar. Durante quase dois anos, Fortaleza e Rogério Ceni viveram uma história de glórias, brigas, títulos, vaias e dedicação. Uma história que jamais será esquecida. Gratidão, Rogério Ceni e até breve...

Texto: Ricardo Tavares